Os outros mecanismos da evolução realmente existem. A deriva genética, aliada ao furor 'criativo' da DNA, pipocando em polimorfismos múltiplos e mutações, tem seu papel na evolução e no quadrar do círculo da vida. Fatos são inegáveis, para aqueles que não são estúpidos.
Todavia, a vida é adaptada. A única ferramenta capaz de explicar a adaptação da vida é a seleção natural. Não há ainda outra saída lógica.
Ou, então, teremos que acreditar que o acaso, na fortuidade randômica das derivas volúveis, tem a capacidade de adaptar os seres vivos aos seus respectivos nichos.
Eu penso ser improvável. A adaptação dos seres vivos requer uma explicação melhor do que o acaso e a vontade divina, justamente por ambos não explicarem nada!
Quando o meu computador pára de funcionar, levá-lo ao técnico habilitado dá mais resultados do que eu jogá-lo para cima, para ver se as peças se readaptam sozinhas.
Por isso, quando colocamos Deus na jogada, jogamos mais diretamente contra a seleção natural, pois é ela quem faz o papel de artífice consciente (o papel de Deus) sem ser consciente, pois é ela quem ajusta a vida – a adapta - a seus nichos.
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Agora vamos às fascinantes nuances da evolução, nem sempre percebidas por entusiastas principiantes.
Seleção, como o próprio nome diz, seleciona formas ou caracteres em detrimento de outros. Sendo assim, não é nem uma boa explicação para o design ou a complexidade da vida, quanto mais a única.
O papel da seleção é justamente limitar a explosão criativa da vida, peneirando formas e deixando passar poucas delas.
A organização hierárquica dos genes de desenho corporal, por si só, já dá conta do recado do design. Poucas mutações, em certos genes, criam novos pares de pernas e olhos, transformam mãos em asas, alongam ossos, caules e folhas ou variam a cronologia do desenvolvimento o suficiente para se ter desenhos diversos e criativos no reino animal ou vegetal.
Na formação da diversidade existe um equilíbrio entre as mudanças neutras e as selecionadas. É fato. Porém basta que uma população se divida em duas para que divergências genéticas se acumulem e se formem duas espécies diferentes, mesmo sem pressões seletivas diferentes.
Para que a seleção seja atuante e influencie de verdade, precisa de certas condições propícias, que são, principalmente um grande N e uma grande competição ou pressão predatória, muitas vezes aliadas a mudanças ambientais. Cenários assim favorecem a atuação da seleção natural que dificilmente deixa passar caracteres que não aumentam o fitness dos indivíduos. Por isso observamos facilmente a seleção natural em tempo real em nuvens de gafanhotos pulverizados com inseticidas ou virus da AIDS inundados de drogas antivirais.
Mas este tipo de cenário não é tão comum na natureza como pensava Darwin ao examinar as curvas exponenciais de crecimento que lhe inspiraram. Um ecologista conhecido chamado Slobodkin disse que "a terra é verde". Ele se referia ao fato de que, muitas vezes, as populações animais têm um fartura de recursos à disposiçào, configurando um cenário onde há lugar para muitos tipos de variações e onde a seleção atua pouco e a diversidade aumenta.
Outro fato é que parece que a maioria das especiações ocorrem por peripatria. Ou seja, uma pequena parte da população se afasta e se isola, acabando por dar origem a outra espécie. Nestes casos, o N se torna pequeno, e características particulares dos fundadores acabam por se espalhar pela nova espécie sem ter passado por seleção alguma, ou seja, sem ter eliminado outras formas.
Sabe-se que, ao final de grandes extinções, a vida explode em irradiações adaptativas, onde a diversidade aumenta radicalmente em pouco tempo. Nesses casos as poucas populações sobreviventes estão pequenas. Seus integrantes podem ter sobrevivido porque seus caracteres foram selecionados, mas também pode ter sido pura sorte, a depender do tipo de evento catastrófico que provocou a extinção dos outros. Vários deles simplesmente estavam no lugar certo, na hora certa.
Pois bem, temos então o oposto do cenário favorável à seleção. Temos poucos indivíduos, tornando os eventos estocásticos mais influentes, pois com poucos indivíduos, tudo pode acontecer, ao mais apto ou ao menos apto. E temos um ambiente grande, esparsamente ocupado, cheio de nichos e oportunidades à espera dos poucos sobreviventes. Numa situação como esta, há lugar para muitas das tentativas da natureza que, sem a competição pressionando, podem se espalhar, prosperar e fundar novas populações que podem gerar novas espécies ao se isolarem. Novamente, nada (ou muito pouco) foi selecionado.
Isso aponta para outro conceito interessante que é a seleção de habitats. Quando uma nova variação, ou um mutante, adquire uma nova habilidade, ele pode ser capaz de explorar um nicho novo e inacessível para a população. Sendo assim, ele e seus descendentes podem prosperar usufruindo dos novos recursos SEM COMPETIR OU INTERFERIR NO SUCESSO DO RESTO DA POPULAÇÃO, e sem ser selecionado eliminando os outros.
Até mesmo com populações grandes, há boas chances de genes neutros se fixarem pelo chamado efeito carona. Em muitos casos, apesar do grande número de machos, apenas alguns deles monopolizam as fêmeas e se reproduzem. Se eles são machos dominantes, devem ter genes selecionados que os fazem dominantes, mas também possuem muitos outros neutros, que vão se fixar na população, pois a maioria é seu descendente. Então se ele tem um nariz grande, olhos puxadinhos ou um sexto dedo, a população toda pode acabar sendo assim, e selecionistas incorrigíveis como Zé do Brejo vão ficar quebrando a cabeça para "advinhar" as vantagens reprodutivas de tais caracteres (e pior, vão encontrar não uma, mas várias delas, pois sempre se pode inventar um cenário com uma possível pressão seletiva para justificar essas "adaptações").
Realmente, o mecanismo de seleção é o melhor que temos para explicar as adaptações. Mudanças corporais que vão gradualmente ajustando caracteres a um nicho ou função, otimizando seu uso, são bem explicadas por seleção (embora há recentes decobertas como a epigenética que complicam as coisas, falamos nelas depois).
Contudo, o problema é que há poucos casos onde podemos constatar cientificamente que houve adaptação. O fato de caracteres serem "perfeitos" para as funções que realizam não é prova de que foram adaptados para tal.
Muitos caracteres de um organismo, citados como adaptações a um nicho, apareceram muito antes na linhagem ancestral da espécie, sem ter nada a ver com o nicho atual. Um bom exemplo são os pés do pica-pau. Pica-paus têm pés com dois dedos voltados para trás, o que os habilita a se fixar em troncos verticais e é fundamental para que possam picar paus atrás das deliciosas larvas que tanto aprecia. Pois bem, parece um clássico caso de adaptação. Porém, o fato é que esse tipo de pé é um caráter ancestral comum a todos as aves da ordem dos pica-paus, os piciformes. Isso inclui os tucanos e gálbulas que nunca tiveram o hábito de picar paus. Ou seja, apesar de parecer, os pés zigodáctilos não são um adaptação para o nicho dos pica-paus. Ele simplesmente já era assim e começou a explorar este nicho contando com alguns caracteres que já tinha.
Eu já vi muitos defensores da evolução em apuros quando criacionistas falam em "complexidade irredutível". Quer dizer, sistemas formados por muitos componentes, perfeitamente ajustados para uma função, mas que dificilmente podem ter se desenvolvido por acúmulo de estágios intermediários vantajosos, simplesmente porque não são funcionais enquanto incompletos.
Eles ficam em apuros porque se prendem à idéia de que tudo tem que ser selecionado para existir. Acham que tudo tem que ser uma adaptação. Mas muitos desses sistemas tem seus componentes formados em diferentes épocas ao longo da linhagem da espécie, de maneira independente. Alguns podem ter se fixado por seleção nas condições vigentes na época, outros por deriva, mas não estão relacionados com o sistema que existe hoje e nem com a sua função. Então não são adaptações a ela. O que aconteceu foi que, um belo dia, uma espécie descobriu que tinha reunido uma série de características independentes que, uma vez juntas, a tornaram notavelmente apta a explorar um nicho diferente. a ponto de pensarmos que se desenvolveram "para" explora-lo.
Vejam um bom exemplo. Os percomorfa são peixes que habitam os recifes de coral e são notavelmente adaptados a este ambiente. Entre as características "perfeitas" para explorar o seu nicho destacam-se a capacidade de protrusão maxilar, que faz da boca um tubo de sucção ideal para chupar invertebrados dos buracos do recife e as placas dentígeras nos arcos branquiais formando as chamadas 'maxilas faringianas' (dentes no céu da boca e língua) para mastigar a dura casca das presas. Além disso, uma bexiga natatória sofisticada que regula precisamente a flutuação, escamas elasmóides leves e flexíveis e nadadeiras pélvicas deslocadas para frente, bem próximas às peitorais, lhes conferem uma excelente manobrabilidade e agilidade para caçar e se esconder entre os labirintos dos corais.
Tal adequação ao habitat sugere que as pressões seletivas do ambiente de recife "provocaram" essas adaptações e direcionaram a evolução desses peixes. Porém, ao examinarmos a história natural dos peixes ósseos acabamos por descobrir que todas essas características surgiram muito antes, em diferentes grupos ancestrais e em períodos distintos do final do paleozóico até o inicio do cenozóico.
Assim, vemos que as maxilas faringianas surgiram em ancestrais distantes como os primeiros neopterigy. A maxila destacável que permite a protrusão da boca surgiu um pouco mais tarde, na origem dos haleocostomi e bexigas natatórias reguláveis e escamas elasmóides já aparecem na irradiação, mais recente, dos teleostei (maior grupo de peixes viventes). Por último, sendo a única característica própria dos percomorfa, ocorreu o deslocamento anterior das nadadeiras pélvicas culminando finalmente nos ágeis e precisos nadadores do recife de coral.
Acho que isso é um bom exemplo de como "peças" distintas e independentes, um belo dia, se juntam em um bicho e a combinação delas forma uma máquina engenhosa, eficaz na exploração de um nicho.
Só podemos afirmar que houve adaptação quando temos evidências de que as formas atuais foram selecionadas entre outras que foram eliminadas. Ou seja, se conhecemos os ancestrais de uma espécie, sabemos que tais ancestrais exploravam um nicho, e observamos que as formas atuais possuem diferenças favoráveis fixadas na população eliminando as outras, temos um caso de seleção natural. Mas, se tudo que temos é o bicho já "adaptado" não podemos afirmar muita coisa. Ele poderia ter simplesmente inventado este nicho, aproveitando o sortudo fato de já ser daquele jeito, depois de milhões de anos de divergências genéticas, sem direção definida, na sua linhagem ancestral.
Enfim, os seres vivos são um fascinante mosaico de características que podem ter se fixado por seleção ou por puro acaso. Os grandes saltos evolutivos e grandes mudanças de design corporal são mais facilmente explicados pelo acúmulo histórico de caracteres independentes do que por pressões seletivas. À seleção resta um papel de fine-tunning, ajustanto gradualmente caracteres já existentes, aumentando ou entortando ligeiramente asas, bicos ou folhas, tornando-os ainda mais ajustados ao nicho em exploração, tarefa bem mais compatível com a idéia de pequenos incrementos vantajosos.
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À primeira vista, a ciência é um estraga prazeres.
Pois ela, realmente, demonstra que a vida não tem sentido. Em seu mais esclarecedor exemplo, a Teoria do Gene Egoísta de Dawkins, demonstra-se que não passamos de mecanismos - reles máquinas - para a perpetuação de genes inconscientes. Tudo o que há de mais elogiável e execrável em nós, o amor, o ódio, a nobreza de caráter, a consciência, as ações desinteressadas, o ciúme, a inveja, o perdão e mais todos os outros comportamentos que tanto separam os humanos dos escaravelhos e mangustos: não passam de um mecanismo elaborado, construído de modo a maximizar as chances estatísticas da perpetuação de certos padrões físico-químicos que chamamos de genes.
Não somos a causa de nada. Somos apenas o produto de genes inconscientes se em determinado ambiente.
Que dura lição para aquele que já se sonhou à imagem e semelhança de um Deus perfeito e eterno, mas acordou como não mais do que uma espécie de abridor-de-latas, saca-rolhas, liquidificador e demais artefatos de finalidade bem estabelecida e específica.
Porém, algumas pessoas que já leram - e entenderam - O Gene Egoísta, como que colocaram lentes novas no seu modo de perceber a realidade. E, para elas, o quadro que se afigura agora é tão mais bonito, é tão de tal modo encantador e elegante, superando visões metafísicas e religiosas, que o mundo não é mais o mesmo.
Após atravessar esse rio de idéias (para usar a imagem de Heráclito), o mundo se preenche de novos significados. A eterna pergunta "há algum sentido para a vida?" perde o sentido. Pois que justamente aprendemos que a vida, em si, não tem sentido. A vida é o mecanismo de um processo apessoal, amoral, mecânico e inconsciente, que é a reprodução espaço-temporal dos genes. Sim, somos um mecanismo! Apenas mais sofisticado do que aquele saca-rolhas ou abridor-de-latas.
Não possuímos um vento divino animando nossos passos. Para o grande esquema das coisas, somos tão (des)importantes quanto a poeira que se ergueu e foi deixada na indiferença para trás do caminho. Sabemos, agora, que não há um sentido para a vida já previamente impresso pelo fogo divino em alguma tábua de lei perdida na história do mundo.
Ao contrário de desesperançosa, essa mensagem é fantástica! Se a vida não tem um sentido pré-determinado, então, podemos atribuir algum sentido pessoal para a vida! Qualquer um. O que quisermos. A vida não tem sentido, o que tem sentido é viver! Encontre os seus sentidos. As possibilidades são imensas. A realidade toda nos sorri como um girassol com um parque de diversões no meio.
Um parque perigoso, todavia divertido.
Um parque divertido, todavia transitório.
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Bem, eu não afirmei que o conjunto de premissas que você colocou, que inclui a seleção, não pode gerar complexidade. Apenas disse que a seleção não era uma boa explicação para a complexidade e design dos seres vivos.
O que você hipotetizou, assim como Dawkins com os biomorfos, é exatamente uma concentração artificial e conveniente das condições ótimas para a atuação forte da seleção. No caso dos biomorfos então, onde o operador explicitamente escolhe um sobrevivente e elimina sistematicamente os outros, aplainando todos as possíveis variáveis adicionais, a seleção é, por definição, o centro das atenções. O ponto onde quero chegar aqui é que isso não espelha o que acontece na natureza.
A idéia de um algoritmo simples e elegante dando conta, por si só, de toda a diversidade viva é notavelmente atraente. Mas, infelizmente, se apegar a essa idéia confortável é, de certo modo, fugir da complexidade e imprevisibilidade dos incontáveis eventos que podem reger a sucessão de criaturas que observamos na história do planeta.
Um dos aspectos importantes é exatamente este. A história. Quando vemos um ecossistema hoje, temos um retrato instantâneo de como são suas características e relações, e com base neste retrato, tentamos inferir como se desenvolveram.
Um, e apenas um, dos fatores que podem ter influenciado a presença e abundância de uma espécie é o seu fitness. Ou seja, a sua capacidade intrínseca de sobreviver e se reproduzir, mais ou menos, por ali. Mas outros inúmeros fatores, ao longo da história desse ecossistema, determinaram como ele é hoje, e quem vive ou abunda nele. Quer dizer, a sobrevivência dos mais aptos é apenas um dos lados do bem lapidado diamante, com suas diversas facetas, cada uma com seu brilho, a depender do ângulo que se olha.
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Adaptações, pra que te quero
Talvez meus interlocutores argumentem. Ora, imaginar que os genes da Carla Perez são adaptações para o assento é um exemplo alegoricamente forçado. Ok. Acho que é mesmo. Vamos para uma coisa mais séria. Será que podemos pensar no surgimento de pernas e pulmões nos vertebrados como um exemplo confiável de adaptação?
Pernas e pulmões, parecem claras adaptações para viver e se locomover em ambiente terrestre. Parece mesmo óbvio, considerando a eficácia com que tais orgãos perfazem essas tarefas e as vantagens que eles trazem aos empreendedores de tal façanha, que se tratam de adaptações (e, por definição, seleção natural na direção deste nicho). Novamente temos apenas os tetrápodes já com pernas e pulmões já vivendo na terra, andando e respirando. Mas o encaixe é tal que a hipótese adaptativa parece óbvia demais, não?
Pode ser, mas há um furo intrigante. Pulmões e pernas surgiram ANTES, do primeiro peixe ósseo se aventurar na terra. Os placodermos, peixes blindados e exageradamente ossificados, deixaram fósseis calcificados de, pasmem, pulmões. E isso no siluriano, dezenas de milhões de anos antes dos primeiros sarcopterígios andarilhos. Esta descoberta fez os paleontólogos reverem as hipóteses de que os pulmões seriam derivados das bexigas natatórias dos peixes. O que se acredita hoje é o contrário, as bexigas é que derivaram dos pulmões, pois esses são bem mais antigos.
E quanto as pernas, os primeiros peixes que as possuiam, com pés, dedos e tudo, no devoniano, mostram características que indicam (segundo os especialistas) que eles viviam na água e não iam na terra. Apenas milhões de anos depois, alguns de seus descendentes, começaram a explorar o nicho terrestre. Ou seja, contra as espectativas, as pernas e pulmões não são adaptações à vida terrestre. Pressões seletivas para andar na terra não foram responsáveis pelo seu surgimento.
O que houve foi que um bicho já com pernas, pulmões, zigapófises e etc. se aventurou na terra seca e fundou uma nova linhagem. Sem competir ou eliminar outras formas.
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Restrição das restrições históricas.
A história de um ser vivo pode conter um componente de acaso, mas também um padrão intrínseco deslindável.
Realmente, a história da ancestralidade de um indivíduo pode conduzir a evolução para picos inesperados.
Veja o caso do nervo laríngeo recorrente nas girafas. Por mero acaso de sua ancestralidade (afinal, todos temos de ter um ancestral, e ele terá suas determinadas características pessoais) o nervo laríngeo das girafas, ao invés de se dirigir do cérebro diretamente para a laringe próxima, ele sai do cérebro e, para dar uma volta completa na aorta dorsal da girafa, dirige-se para baixo, além de seu alvo, quase à altura de seu peito, para depois voltar para cima e atingir seu contato com a laringe. O desvio custa à girafa por volta de dez metros de axônios desnecessários. Devido à baixa velocidade da condução nervosa, este trajeto recorrente pode custar entre um a dois segundos de atraso entre a eferência cerebral e a sua comunicação na estrutura que a irá materializar.
Um projeto ineficiente.
Tal desperdício acontece porque o nervo laríngeo é o quarto ramo do nervo vago, um dos pares de nervos cranianos.
Ele é originário de ancestrais aquáticos com forma de peixes. Neles, os ramos sucessivos do nervo vago passam por trás dos arcos branquiais sucessivos que vão em direção às brânquias.
Durante a evolução, os arcos branquiais transformaram-se em outras estruturas. Nos mamíferos, o sexto arco branquial evolui para o ducto arterial que fica próximo ao coração.
De certa forma, o nervo laríngeo continua passando no local do sexto arco branquial. Só que tal estrutura desviou-se na embriologia dos descendentes mamíferos, deixando o nervo laríngeo em um beco sem saída, a não ser dar a volta.
Nós, humanos, também temos nervos laríngeos recorrentes em virtude de nosso ancestral comum com a girafa, mas, o desvio é pequeno, aproximadamente trinta centímetros.
O que definiu parte da anatomia do nervo foi a sua história ancestral. A seleção natural não atuou para fazer a recorrência do nervo laríngeo. Aliás, se o fizesse, seria para eliminar tal canhestro projeto.
Todavia, o nervo vago evoluiu por seleção natural, por prestar-se a fazer o serviço a que se presta em nós, em nosso ancestral pisciforme. O que definiu sua função inicial, e pelo menos parte de seu trajeto, foi a seleção natural. O acaso desnorteado dificilmente orientaria um feixe de fibras nervosas, com uma multiplicidade complexa de funções, a estimular os músculos corretos, do modo correto, e em tempo correto.
Parte da história é a própria ‘explicação’ para os fatos. Parte da história pode ser explicada por outros fatos.
Parte da história é acaso, apenas derivada de fatos e o inevitável desdobramento do prosseguimento deles; outra parte, explicável e aplicável a outras histórias.
Pernas, para que vos quero?
O uso das pernas para locomoção terrestre pode ser uma exaptação, não uma adaptação. Isto simplesmente empurra a seleção natural adaptativa clássica um pouco mais para trás no tempo.
Na água, pernas podem servir para nadar (veja uma rã, artêmias salinas); podem servir de apoio, como uma espécie de âncora (veja o caso do peixe sapo-listrado); como espinhos, para proteção (a Wivaxia teria - porque não - as 'pernas' para cima); para andar no fundo do mar e nadar (como os camarões); para andar e escrafunchar o fundo do mar ; podem ajudar a travar e ajustar o parceiro na hora da cópula, etc, etc, etc.
E todas essas formas poderiam ter sido selecionadas naturalmente, na água, antes de darem seu primeiros passos em terra firme, e a seleção natural as ajustou finamente ao novo nicho.
O fato de uma característica adaptativa de hoje, estar presente em um animal do passado, não quer dizer que ela não tivesse uma função adaptativa anterior, selecionada naturalmente que, posteriormente, foi exaptada, por ser selecionada naturalmente de novo.
A existência dessas estruturas não é evidência contra a seleção natural, mas, antes, possível evidência de seu caminho tortuoso e estranho.